terça-feira, 13 de outubro de 2009

E no 7º Dia...

Carta aos donos dos cães acorrentados:

" Querido dono,

Consegui que escrevessem esta carta por mim. Nem sabes a alegria que sinto por poder comunicar contigo. Todos os dias, desde aquele dia longínquo em que me colocaste a corrente no pescoço e me prendeste neste espaço, eu sonho que me vens visitar e fazer festinhas como me fazias quando eu era um bébé. Eu sonho que vens conversar comigo, não entendo muito bem o que me dizes, mas nem imaginas como adoro ouvir o som da tua voz!

Eu sei que fiz algo de errado, senão certamente não me terias colocado aqui. Desculpa! Não quero ser exigente mas começa a doer ter esta corrente atada ao meu pescoço. Ás vezes tenho o pescoço dormente, e outras vezes tenho muita comichão e nem consigo coçar! Sinto o seu peso todos os dias, o peso da solidão que me prende.

Tenho vontade de esticar as pernas e correr e como eu gostava de poder fazer isso contigo. Adorava que me atirasses umas bolas, aí eu podia mostrar-te como sou rápido a correr e como tas trazia rapidamente. Gostava de poder ver o que tu vês, o mundo lá fora é muito grande? E existem outros como eu?

Ás vezes tenho sede e alguma fome mas eu aguento em silêncio porque sei que assim que podes vens cá dar-me comida e água, sei que fazes o que podes, eu não quero incomodar, mas sabes, por vezes gostava de ter um pouco da tua companhia.

Sei que talvez alguém te tenha dito que eu não tenho sentimentos, mas olha que é mentira! Nem imaginas quanta alegria sinto quando alguém me toca ou se dirige a mim. Nem sabes quanta tristeza e solidão pesa em mim nas longas horas que não vejo ninguém. Nem sabes o medo que por vezes sinto no Inverno aqui sózinho, e tenho tanta vontade de estar perto de ti.

No outro dia passaram aqui umas pessoas estranhas e puseram-se a olhar cá para dentro e a apontar para mim, riam e atiravam umas pedras na minha direcção. Queriam vir fazer-te mal. Acertaram-me com uma na pata e ontem não consegui levantar-me , mas eu afuguentei-as logo com o meu ladrar. Eu não quero que ninguém te venha fazer mal...e não quero que te zangues comigo, eu prometo fazer melhor por ti.

Eu sou o teu amigo mais fiel, nunca te irei trair, não guardo rancor, e não tiro nunca o lugar de ninguém, será que tens mais amigos assim no teu mundo? Só queria um pouco mais da tua atenção e amor, uma cama quente no inverno, um local fresco no verão e o teu cheiro a entrar-me nas narinas todos os dias, seguido de um sorriso e uma festa no meu velho lombo.

Eu sei que um dia tu irás chegar aqui e tirar a corrente, e dar-me tudo isto, até lá eu fico quieto á espera. Só não demores muito meu dono, porque estou a ficar velho e começo a ver e ouvir mal. Faltam-me forças e não quero ir, sem viver um pouco contigo.

do teu cão"

Se virem um cão aprisionado, imprimam esta carta e coloquem na caixa do correio dos donos. Em nome de todos os "cães", obrigada.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

E no 7º Dia...

Este blog começou porque, todos os dias passo pelo “cão”. O “cão” vive acorrentado a uma árvore dentro de um campo de plantação de batatas. É o típico “cão de guarda”. Porte grande, musculado e toda a vida preso para “meter medo”. A mim mete-me pena. Todos os dias passo de carro tiro-lhe uma foto e peço-lhe desculpa “faço o que posso”. Ele é usado como um objecto, como alguém que compra uma campainha, ou um sistema de alarme e o coloca no portão. Está ali para servir o seu dono ausente. Todos os dias lhe atiram um pedaço de comida, ele ladra de vez em quando a quem passa, outras vezes nem se dá a esse trabalho, “para quê?”.



O que ele conhece do mundo começa e acaba naquela paisagem. Todos os dias, adormece e acorda no mesmo local. Todos os dias, são iguais. Acorda, fica ali deitado e dorme. Não interage com ninguém. Ninguém se aproxima dele, faz bem o seu trabalho. Não tem amigos de 4 patas, os outros cães não entram na propriedade e ele também não sai. Não tem amigos da espécie dele e tem muitos inimigos da espécie que o colocou naquela prisão.



Água, uma árvore e uma casota feita de tábuas e um telhado de zinco é tudo o que ele tem e é tudo o que ele vai ter até à sua morte.
Esta é a superioridade do ser humano, a de poder usar outro ser senciente, ignorar as suas necessidades, bem-estar, sentimentos e trata-lo como um objecto.

Não sei à quanto tempo o “cão” está nesta existência, será que ele alguma vez viveu para além disto? Quando levo os meus cães a passear na praia, a nadar no mar, a correr na areia, a brincar com outros cães, a dormir no meu colo enquanto lhes coço as orelhas, a cheiras as matas, a ver o pôr-do-sol, penso sempre no “cão”, preso a uma corrente, deitado no pó, com calor, ou frio, ou fome, ou solidão. Penso no “cão” e reduzo-me à minha insignificância de nada poder fazer e ao meu desgosto eterno de fazer parte da espécie que faz algo tão cruel ao “cão”.

30 de Setembro de 2009 - 14:00